Abstract:
O presente trabalho foi realizado no âmbito do Curso de Especialização Pósgraduada em Geologia Aplicada da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em parceria com o Museu Nacional de História Natural e o Instituto Hidrográfico. O seu
principal objectivo foi estudar a dinâmica sedimentar da plataforma continental adjacente à cabeceira do Canhão Submarino da Nazaré. Os canhões submarinos têm despertado o interesse da comunidade científica, sendo a sua origem e evolução tema de grande controvérsia. Tratam-se de vales submarinos estreitos e longos, com vertentes muito inclinadas, profundamente escavados nas margens continentais. Muitas vezes, são percorridos longitudinalmente por correntes turbidíticas que promovem a transferência de sedimentos do continente para a planície abissal. O Canhão Submarino da Nazaré situa-se na Margem Continental Oeste Portuguesa é o mais longo da Europa e um dos maiores do Mundo com mais de 200 km de comprimento. Inicia-se junto à costa e estende-se até à Planície Abissal Ibérica a
cerca de 5000 m de profundidade. Divide a plataforma continental em dois domínios (norte e sul) com características tectónicas e sedimentares distintas (RODRIGUES, 2001). Ter-se-á instalado numa extensa faixa de fracturação, a falha da Nazaré (VANNEY & MOUGENOT, 1990) e modelado ao longo do tempo pelos sedimentos capturados na zona
da cabeceira (DUARTE et al., 2000). As condições oceanográficas geradas pela presença do próprio canhão e o posicionamento da cabeceira muito próximo da costa, podem ser factores determinantes no padrão de distribuição dos sedimentos do canhão e da plataforma continental adjacente. Ao longo dos últimos anos foram realizados estudos por DUARTE et al. (2000, 2002), SCHMIDT et al. (2001), OLIVEIRA et al. (2007), STIGTER et al. (2007) e ARZOLA et al. (2008) entre outros, que contribuíram para o conhecimento da dinâmica
sedimentar do Canhão Submarino da Nazaré. O promontório a norte da Nazaré promove a entrada dos sedimentos transportados pela deriva litoral de norte (DUARTE et al., 2000). Esta deriva corresponde a mais de 1×106 m3 de sedimentos por ano (OLIVEIRA et al., 1982 in MAGALHÃES, 2001;
TABORDA, 1993). Estudos realizados pelo LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) em 1976, revelaram que, embora a maior parte dos sedimentos seja capturada pelo canhão, uma parte muito reduzida contorna, em determinadas circunstâncias, o promontório da Nazaré. No entanto, na plataforma continental adjacente ao canhão pouco se conhece sobre a dinâmica sedimentar dos sedimentos arenosos. Nesse sentido o presente trabalho pretende estudar a dinâmica sedimentar deste sector, tendo como base a análise dos minerais pesados da areia. Os minerais pesados são partículas sedimentares com densidade superior a 2.8 que geralmente aparecem como minerais acessórios nos sedimentos arenosos, com
percentagens que raramente ultrapassam 1%. Estes minerais podem estar presentes nas rochas como minerais essenciais ou como minerais acessórios, ocorrendo numa grande variedade de rochas (MANGE et al., 1992). O estudo dos minerais pesados permite identificar e caracterizar a proveniência
e o transporte dos sedimentos desde a origem até à deposição, visto que um mineral pesado e/ou cortejo de minerais pesados de um determinado sedimento pode apresentar semelhanças qualitativas e/ou quantitativas com o conjunto de minerais das
rochas da área fonte. Deste modo, embora os minerais pesados sejam um ramo especializado da sedimentologia, revelam-se uma ferramenta auxiliar em áreas como a oceanografica (e.g. determinação do sentido de correntes), prospecção mineira (e.g.
localização de jazigos primários através das respectivas paragéneses contidas nas aluviões), paleogeografia, geomorfologia, tectónica, estratigrafia, pré-história e pedologia (GALOPIM DE CARVALHO, 2005). Em Portugal a aplicação dos minerais pesados a estudos de dinâmica sedimentar
da plataforma, conta com os trabalhos de CASCALHO (1993; 2000) e CASCALHO & FRADIQUE (2007) sobre a Plataforma Continental Setentrional Portuguesa; POMBO et al. (2006) relativo à plataforma interna ao largo de Sines, RODRIGUES et al. (2006) sobre a Plataforma Meridional Insular da Ilha da Madeira e, GONZALEZ et al. (2007) na plataforma continental adjacente à foz do rio Guadiana